OS IMPRECISOS LIMITES DA HISTÓRIA E DA LITERATURA NA FICÇÃO DE LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

 

Eneida Weigert Menna-Barreto -UFRGS

 

 

Luiz Antonio de Assis Brasil ao fazer a leitura ficcional do episódio no Morro do Ferrabrás, em sua obra Videiras de Cristal apropria-se de uma dimensão da história para realizar o discurso da crítica ao oficialismo. A narrativa transcorre em 1874, no morro do Ferrabrás, na então região do Padre Eterno, hoje, imediações de Sapiranga, no interior do Rio Grande do Sul. O texto narra a formação e extermínio de uma seita de alemães, liderada por Jacobina Maurer. A seita foi dizimada por tropas governamentais, ajudadas por colonos da região contrários ao seu desenvolvimento.

Pensar a aproximação entre Literatura e História, esses dois campos do saber, é levantar, questões que, segundo Homi Bhabha, “focalizam momentos ou processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais”.(BHABHA, 1998:20). Assim, o “entre-lugar” dos imigrantes alemães no Morro do Ferrabrás, em Videiras de Cristal, possibilita o aparecimento de “novos signos de identidade”( idem, p.20), definindo, dessa forma, os limites prescritos de representação social. As estratégias de representação da comunidade alemã dão-se por meio da aquisição de poder de algumas personagens que se revela no decorrer da narrativa. Essas estratégias nem sempre se manifestam de forma harmônica, dialógica ou cooperativa.

A complexidade de fatores revelados pelo hibridismo cultural resulta de modificações históricas, em que pesem questões relacionadas a um mesmo denominador comum de vida, como as privações que eram vivenciadas pela maioria das pessoas. Dessa maneira, a inscrição de um sujeito pensante a partir da margem, de um local de minoria, confunde a delimitação de uma fronteira tida como inquestionável e estabelece correlações que permitem vislumbrar o Outro de modo diferente. Há uma tomada de consciência de um Eu em relação ao Outro, modificando-se as produções culturais e as estruturas sociais.

Portanto, se em uma interpretação do enredo de Videiras de Cristal forem abordados elementos que se situam marginalizados em relação a um centro, há toda uma construção de sujeito periférico, sofrendo um afastamento cada vez mais proposital em relação a esse centro. Esse sujeito periférico, representado pela personagem de Jacobina Maurer, é concebido de forma também metafórica porque, semanticamente, reforça a idéia de barbárie em oposição a de civilização. A bipolaridade se expressa por meio de um afastamento significativo entre duas ordens de realidade: o Eu e o Outro. Esse afastamento, no entanto, permite a elaboração de um imaginário, ou seja, o lugar onde se exprimem as representações de cada sociedade em particular.

Assim, a protagonista de Videiras de Cristal emerge numa sociedade alemã, fechada, comunitária e, ao mesmo tempo, antagônica e conflituada. Ela representa o poder de um extrato social marginalizado, tanto pelas autoridades brasileiras, como por seus próprios patrícios que já haviam ascendido a uma posição política, econômica e social elevadas. A localização geográfica dessa comunidade – distante de todo o contexto civilizatório – reforça a lógica binária da diferença – eu/outro. A visão do outro como transgressor da normalidade é, de certa forma, cômoda. O que decorre dessa reflexão sobre as margens é uma inquietude de difícil solução, visto que o olhar da margem ameaça o centro. De qualquer lugar em que estiver situada a margem ela estará, inevitavelmente, dirigindo o olhar para um centro que oprime.

As representações que aparecem nessa sociedade de imigrantes alemães são sintetizadoras da necessidade de superação das carências daquele povo. E quem alcança notoriedade é a personagem Jacobina que formula o discurso ex-cêntrico, feminino, contestatório, representativo da comunidade.

Em meio a solitárias reuniões daqueles habitantes fixados no Morro do Ferrabrás, cujo contato – social e geográfico – com o povoado mais próximo se fazia de modo precário, manifesta-se o fenômeno da marginalidade envolvido em uma atmosfera místico-religiosa. Este fato é de importância singular porque histórico. Jacobina assume a liderança da comunidade: passa a ter voz. Sua voz preenche um vazio existencial e social cuja característica se revela nesse envolvimento místico-religioso. Embora sem a devida conscientização, os colonos dessa região também buscavam preencher a lacuna derivada do desenraizamento, da perda da pátria sem a conquista de outra. Há, então, um desejo, não expresso, de aglutinação, de construção dessa comunidade que, sob a perspectiva religiosa, pretendia a resolução de uma carência que os próprios moradores não sabiam definir.

O espaço simbólico, criado pelos habitantes do Ferrabrás, tornou-se um espaço sob suspeição, claramente verbalizado no discurso oficial. Estabeleceu-se uma dicotomia, facções entre os imigrantes: de um lado os “ímpios”, e de outro os “muckers”. Os “ímpios’, mostravam-se a favor do governo central e os “muckers”, contrariamente eram os que participavam das atividades religiosas e da vida no Ferrabrás. Muckers, que quer dizer hipócritas, santarrões, fanáticos, passam a sofrer repressões e represálias.

Vê-se, então, que a colônia estava cindida em torno de Jacobina, e em torno do poder. Uns aderiram ao poder, isto é à visão oficial, outros à perspectiva ex-cêntrica, dos marginalizados, daqueles que esperavam a salvação através de uma contemplação espiritual denominada por Jacobina de “Espírito Natural”.

O discurso oficial não é um discurso que se abra às discussões, ele não é neutro. O discurso oficial e todas as suas ramificações não favorece a compreensão do fenômeno porque pretende manter a coesão da sociedade sob sua lógica. Desse modo, o poder constituído mobilizou grupos em seu favor, bem como manipulou indivíduos separadamente. E isso pode ser constatado através de toda a narrativa quando personagens ligadas ao governo se acercam daqueles que se diziam prejudicados pelos “muckers”, a fim de elaborarem estratégias de aproximação e de combate.

Constata-se, na verdade, que o discurso do poder joga com um dado: o do preconceito. Ao jogar com o preconceito salienta a dualidade de visão, ou seja, o eu e o outro. O outro é a representação da barbárie, no pólo oposto, está a civilização, de quem o poder se atribui a representação.

O preconceito, sendo uma tomada da realidade pelo que ela tem de mais superficial, porque funciona ao contrário do conceito, não é uma abertura, é um fechamento para essa realidade. Por isso, em Videiras de Cristal , o governo, ao rotular personagens como Jacobina e todos os seus, bloqueava o entendimento profundo do fenômeno social e existencial. Com esse comportamento, rotulava a comunidade e enquadrava suas atitudes numa estereotipia de grupo, sem indagar ou buscar as causas de todo o processo. Essa visão distorcida da realidade propiciou a discriminação dos moradores do Ferrabrás porque o pronunciar da palavra “muckers” vinha acompanhado de seu significado pejorativo, obscurecendo o entendimento. O poder constituído valia-se do preconceito no sentido de amealhar mais adesões contra o que para eles – governo – constituía uma ameaça: o surgimento de uma seita que apregoava idéias vistas como ruptura da ordem, do status quo.

Percebe-se, desse modo, que o preconceito, gerado na cotidianidade da vida da colônia, provinha de juízos cujas motivações estavam fundamentadas em contradições. Como, por exemplo, a notícia de que no Ferrabrás se acumulavam armamentos, quando, na realidade, as armas eram enterradas para que não houvesse possibilidade de virem a ser usadas.

Em diversos momentos da narrativa manifesta-se o posicionamento negativo do poder em relação aos habitantes do Ferrabrás. Assim, quando uma das personagens, referindo-se a uma petição feita pelos “muckers” ao Imperador e, que este nunca recebeu, é categórica ao dizer que a reivindicação dos “muckers” “. . . é um amontoado de absurdos.” (Assis Brasil,1991:356)

Jacobina, enquanto representação das expectativas, superação das carências de seu povo, absorve elementos de poder que também são os do oficialismo.

Interessante pensar na oposição que instaura esse sujeito enquanto emerge no seu papel de “aquisidor” de poder. Jacobina passou a assumir, em determinado momento da narrativa, a voz do poder. Em vista disso, ela também representou um centro em relação à comunidade em que vivia. Foi um centro agregador das minorias carentes, mas também ocupou uma posição de destaque e, por isso, elemento gerador de insatisfações. Esse paradoxo aparente, no entanto, não foi empecilho para que o carisma de sua figura se consolidasse e fosse fator de transformação de posicionamentos na colônia, mesmo entre aqueles que passaram a temê-la .

A protagonista, embora portadora das esperanças dos que a cercavam, não estava imune às características resultantes do uso do poder. Desse modo, em muitos momentos, seu discurso se torna autoritário, mesmo para com os membros da seita. “Aqui, eu sou a verdade(Idem, p.331); ou “. . . alegrava-se Jacobina, aquela que possuía o direito e o poder de dispor da vida, determinando quem podia morrer e quem podia nascer ”(Idem, p.335) Vê-se, então, que Jacobina, apesar de ter um discurso ex-cêntrico, não era infensa ao discurso do poder, ao romper com regras estabelecidas por ela própria em sua comunidade.

O lugar do Ferrabrás é um espaço em que a diferença se concretiza. É o signo da emergência da comunidade dos “muckers”. O poder de resistência do grupo relaciona-se também à sua unidade, à sua agregação em torno de uma idéia espiritual de salvação, e, no pólo oposto, contrapõe-se ao discurso oficial, eis que este frustra a expectativa dos colonos e choca-se com a dimensão espiritual.

O relato da imigração alemã no Rio Grande do Sul, em Videiras de Cristal tem em Luiz Antonio de Assis Brasil um momento importante, uma vez que representa a recuperação da história sul-riograndense pelas lentes críticas da arte.

História a contrapelo, o texto abordado sinaliza para aspectos do universo humano em que o jogo de interesses do poder se concretiza. A pluralidade de vozes revela ao leitor a linguagem do interdito e o acesso ao poder político das minorias como um modo de sobrevivência: não só política, como também social e cultural.

Com momentos de encantamento poético, Videiras de Cristal revela personagens miméticas vivendo sentimentos humanos. A protagonista, bem como as demais personagens são passíveis de tristezas, alegrias, frustrações e paixões humanas. São, em suma, agentes parciais do seu destino.

Como diz Edward Said (1999:101) “os territórios coloniais são campos de possibilidades e sempre estiveram relacionados ao romance realista” Assis Brasil soube vincular as estruturas da narrativa às idéias, conceitos, experiências que estiveram em suas fontes. Desse modo, transformou os fatos históricos em presenças codificadas em sua literatura.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ARISTÓTELES. A Poética Clássica. São Paulo: Cultrix,1995.                           

ASSIS BRASIL, Luiz Antonio de. Videiras de Cristal. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.

BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e Discurso. São Paulo: Editora Ática, 1995.

BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Minas Gerais: UFMG, 1998.

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WHITE, Hayden. Meta-História :A imaginação Histórica do Século XIX. 2.ed. São Paulo: EDUSP, 1995.